Contos

– Não há o que se faça com essa tranqueira! – Gritou, exasperado, o Herdeiro do Tio Velho.
– Calma, meu senhor. Sou meramente o advogado e somente vim entregar-lhe sua herança.
– Mas justamente ISSO? Ele não podia ter deixado um cheque, um dos relógios de ouro, nada, só esse trambolho miserável?
– Veja, sou somente um emissário – disse o Advogado, já enfiando de qualquer jeito os papéis dentro da maleta, louco para dar o fora de lá e deixar o Sobrinho ter seu ataque de pelanca junto às paredes, que certamente tinham mais paciência que ele com gente assim, malcriada.
– Tá, tá bom, pode ir. Vou ver o que eu faço com esse trambolho enorme.
– Ficou bem na sua sala de estar. Adeus.
E saiu galopando porta afora antes de receber a resposta nos ouvidos.
– Isso é do tamanho da sala toda! Droga!
Três horas de bufos e estalos nos artelhos depois como um boxeador ansioso, o Sobrinho finalmente sentou–se na frente da Herança, de pernas cruzadas e começando a ficar curioso.
Afinal, era uma peça magnífica de carvalho marchetado, feito com trabalho minucioso em peça que parecia única de um tronco certamente tricentenário ou mais.
Era uma espécie de tablado circular com cerca de quarenta centímetros de altura e dotado de uma pequena entrada, como um tampo de mesa imenso e desproporcional, mas sem os pés. Repousava placidamente no chão da sala desalojando o que antes era lugar da mesinha de centro, os dois sofás e as duas poltronas, mais a banqueta onde havia o telefone. Como um disco voador mal pousado, a peça enorme de madeira começou a instigar a imaginação do Sobrinho. (…)

De Todas, Ela

Na coletânea
Desígnios

– Apresento-me a ti, minha bela, humilde e subjugado. Toma-me como teu, imploro; faz-me ver as cores que vês na relva, nos céus noturnos, toca-me como música suave. Teus cabelos de teias me imobilizam, amada, encantadora de homens e seres do além. Amei-te à minha revelia; entende: quero-te minha em vida e após tua morte. Quero-te branda e louca, nas vestes em farrapos que hora mostram teus sortilégios.

– És senão o monstro que sacou-me de minha vida simples e modesta. Sim, o demônio a quem julgavas colher do coração da fêmea agonizante transmutado em laivo de afeto. Demônio aceito ser, se com esse expediente me trates como tal, extraindo a mim mesma da tua alçada.

– Não eram então sussurros amorosos, palavras de amor, mas imprecações e blasfêmias; não era um canto mavioso o teu, amada minha, mas gritos de horror? (…)

KALK1

Na coletânea
Das Profundezas

Numa expedição já longa e meticulosamente planejada, o arqueólogo Jean Leaumant listou mentalmente — e no papel, já que era um pouco obsessivo — todos os itens que levaria para o sítio ainda não demarcado. Olhou de novo o mapa e desenhou com o olhar todas as curvas de nível submarinas. As fotos de satélite, pagas a peso de diamante, ele as guardara numa pasta à prova d’água. Revisou sua roupa de mergulho, tudo pronto, enfim. Já não havia dedos para contar as vezes em que tinha feito esse ritual meio doentio.

Sentou-se na cama e pegou seu diário e caneta-tinteiro. Estava para escrever, também pela enésima vez, que tudo estava certo e preparado; só faltava o aceite dos financiadores do projeto. Coisa de burocracia burra e um tanto de medo de gastar o dinheiro numa empreitada que poderia ou não dar certo. Mas que diabos, havia algo dentro do mar, simétrico, piramidal e perfeito em suas proporções. Nenhum peixe louco para procriar poderia ter feito algo assim, como sugeriram na Universidade. “Idiotas!” — sublinhou o adjetivo com duas linhas.

Enfim, num dia sem graça e meio cinza, Jean recebeu o e-mail dos financiadores. A verba havia sido finalmente liberada e todos da equipe já poderiam fazer seus jantares de despedida com suas famílias. Jean limitou-se a escovar o gato, que seria levado junto com um saco de ração a uma vizinha simpática para cuidar dele enquanto estivesse fora.

Refez a mala mentalmente e a fechou. Ela já estava pronta há quase dois meses! O grupo ficou de se encontrar na estação de trem de Marselha, de onde seria levado de van para o porto, na Quai du Maroc e, de lá, pegaria o barco no estaleiro Marseille-Ajaccio. Da Córsega, viajariam no navio próprio da equipe, indo em direção à Sicília para pegar mais um membro da equipe e zarpar na direção da praia Gram-Laila Murad, no Egito. Isso era somente um ponto de referência no mapa, já que o grupo atracaria mesmo entre as baías Romel e El-Gharam, um pouco mais ao norte das formações rochosas submarinas. O interesse real estava perto dessas formações, que fazem um muro invisível e pronto a cortar o casco de um navio desavisado. (…)

Miserere Nobis

Na coletânea
NEON: Coletânea de contos – 20 anos do NLCAC
Resenhas: Elizeu Barreto (Ver o vídeo aqui)

Por perene que fosse sua tristeza, jamais deixava que esta lhe causasse mais dor do que o estritamente necessário para exercer sua tarefa de observar o céu dia após dia, procurando o sinal que anunciaria o fim do mundo. Sim, o cometa viria como bola de fogo purificadora, levaria as almas dos ímpios e deixaria reinando sobre a terra os puros de coração e os beatos. Acreditava tão firmemente nesse futuro que chegava a se perguntar se sua obstinação não era pecaminosa tanto quanto a lassidão da vontade.

Tendo seu quinhão de responsabilidade, estava satisfeito. Achava no íntimo de seu ser que sua tarefa, tão importante quanto monótona, era dulcíssima se comparada à do prior, incumbido de anotar em um livro de páginas imensas os nomes de todos nas aldeias vizinhas, para que não se perdessem quando chegassem os dias de escuridão.

A idéia desse homem de boa vontade mas de inacreditável tolice era de chamar pelo nome todos os habitantes dessas pequenas comunidades, arrebanhando essas almas simples para levá-las à catedral do ducado sem que se perdessem e ficassem expostas às artimanhas do demônio e seus exércitos. Nobre missão auto imposta que lhe surgira como revelação em um sonho e festejada pelo bispo. Assim ocupado, esse beneditino de poucas luzes não faria oposição aos desmandos e medidas políticas do bispado de Rouen. Que os hospitalários egressos de Jerusalém o vigiassem: a disputa entre as duas ordens era acirrada o suficiente para que o abade aceitasse de bom grado ocupar seus dias na miserável tarefa de espionar e anotar com minúcias rebuscadas as vidas pequenas dos monges em vias de enlouquecer de medo perante o fim iminente do mundo anunciado pelo seu superior. (…)

A Festa da Corda

Na coletânea
Passageiros do Desconhecido

O barco de pesca estava para se lançar ao mar com os integrantes da tripulação – quatro homens da mesma família: o patriarca, seu filho mais velho com o filho do meio, e seu sobrinho de vinte e três anos. Todos compenetrados debaixo da pele já crestada de sol e sal que lhes dava um tom de ouro velho com pelos dourados, quase brancos, nos braços.

Arrumaram a cordoalha em silêncio por já conhecerem de cor a disposição das espirais torcidas, das redes de pesca, de todo o material que os acompanhava desde a infância, sempre na mesma disposição e sempre na mesma ordem de embarque. O patriarca era um homem grande e muito forte; era preciso que assim fosse, porque a ele cabia a função de segurar firme o remo de esparrela, necessário em casos de mau tempo.

O tato do material lhes era tão familiar quanto suas próprias peles; o som que faziam no tombadilho era a voz de seus próprios corações e pulmões. Somente quem lhes falava diferente era o vento, contador de histórias e festas, que lhes trazia novidades do mundo, ao contrário de suas mulheres, mães e irmãs, sempre caladas e de olhar abaixado perante suas vidas vestidas de luto eterno pelos entes queridos e amigos que se foram para morar nos castelos dos peixes.

Nunca nada de novo. Nunca, nem os afogamentos ou pescas abundantes, chuvas que impediam o embarque ou calmarias sufocantes. Os ciclos dos elementos eram perenes, tranquilamente seguros em sua constância como a terra do cemitério local, coalhado de cruzes pequenas e bem cuidadas, sempre limpas pelas viúvas e com flores frescas dispostas de tal forma que aquele parecia ser o local mais colorido e alegre daquela cidadezinha. Muitas daquelas cruzes marcavam túmulos vazios.

Na praia existia uma cruz, enorme, amarrada pelos pés com pedaços de cordas que a cada ano eram unidas e jogadas ao mar, para que as almas dos mortos pudessem subir aos céus ou encontrar o caminho de casa. A Festa da Corda era uma cerimônia triste, a única ocasião em que os habitantes da pequena cidade, homens e mulheres, ficavam juntos e ninguém se atrevia a colocar seus barcos nas águas para não atrapalhar a subida dos mortos. (…)

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