Hits: 4

Mirava-se no espelho querendo guardar-se lá.
Seus olhos achavam companhia,
a única no meio de tanta solidão e esperança.
Olhava-se todos os dias,
sem julgar o que lhe era refletido,
sem arcar com as consequências da ausência
no resto do mundo.
Todos os dias colocava mais de si no espelho
e subia-lhe mais a ânsia de dá-lo de presente
àquela que o cativara.

Por anos a fio fez a mesma coisa e,
quando julgou preencher totalmente
a possibilidade do espelho,
embrulhou-o em seda fina como um presente.
Correu para dar àquela seu mais precioso legado –
si próprio, refletido ao longo dos anos.

Atônita, a mulher abriu o presente, dado sem respiração.
Mais atônita ainda viu-se no espelho,
boca aberta e coração fechando.

Insensível,
nunca percebeu que o homem se esvaía diante de si,
desfazendo-se no éter,
julgando que o pequeno espelho o preservaria.

Insensível,
olhava o espelho e via a si mesma somente.