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Inúmeros autores escreveram sobre os egípcios e, talvez, muito mais trataram da mitologia atinente a esse povo, porém uma releitura dos mitos sempre é bem-vinda.
A autora, Nicole Sigaud, é radicada em Curitiba, com formação em História, Artes Plásticas e Criminologia, sendo estudiosa dos grimórios antigos, magia medieval e da Antiguidade, incluindo o Livro dos Mortos egípcio e o Enuma Elish sumério.
Trata-se de uma novela que versa sobre a tradução livre de O Papiro de Wadjet, o qual encontra-se numa coleção particular. O manuscrito foi levado ao templo principal da capital do reino egípcio e lacrado numa caixa, acessível somente aos poucos sacerdotes pertencentes ao círculo iniciático que teve sua origem em Wadjet. Esse grupo restrito foi fundado por um sacerdote, cuja morte jamais foi constatada, reconhecido mais tarde por Anúbis.
A ideia em recontar a história do papiro surgiu da leitura sistemática do Livro dos Mortos, que afirma ser um mistério o surgimento de An-Pu, nascido das entranhas da Terra, criado entre os lobos, sob o nome de Wepwawet, e que mais tarde tornar-se-ia o deus Anúbis.
Valoroso trabalho de estudo e pesquisa da autora finalizado após 25 anos. Inicialmente, Nicole concebeu-o para uma graphic novel, porém após situações alheias, resolveu transformá-lo em uma novela.
Anúbis foi escolhido para ser o guardião da morte, tendo em vista que, naqueles tempos, os mortos eram enterrados em covas rasas. Assim, para evitar a ação de saqueadores cães e chacais foram usados como protetores. Segundo a mitologia An-Pu foi encarregado de preparar o ritual da morte e embalsamar os corpos, guiando a alma deles com a máscara do chacal.
A partir desse contexto histórico-mitológico, Nicole nos leva ao universo ficcional novelístico a partir da concepção de Anúbis, enriquecida pela narrativa imagética de elementos da natureza dando vida a esse ser único, que após uma vida de sofrimento e desprezo pela sua hibridez, tornar-se-à o deus-senhor dos mistérios da morte. Em meio ao contexto sobrenatural e lendário, a autora nos revela as suas ligações com a licantropia e vampirismo, lançando recursos escatológicos contados de forma natural e inteligente.
O livro realmente prende a atenção, não só porque os egípcios fascinam-me desde tenra infância, mas porque a narrativa de Nicole é absolutamente contagiante com um vocabulário rico e vasto, guarnecido pelas citações e alusões à mitologia e lendas de diversos povos por onde o deus teria supostamente passado, num momento histórico de unificação do Alto e Baixo Egito, sob o reinado de Narmer – o Rei Escorpião.
A magia insinua-se pela leitura de página após página, num misto de suspense e narrativa fluente, contendo um contexto de horror em que monstros aparecem no deserto em forma de escorpião, deixando o leitor apavorado.
O personagem inspira muitos sentimentos complexos, como a compaixão pelo tratamento desumano dado ao “lobinho” – como a própria autora o trata –, convidando a todos a questionar como as diferenças entre os seres podem suscitar reações diversas nos seres. An-Pu, o protagonista, possui elevado senso de justiça com atitudes naturais e intuitivas em relação ao embalsamento de corpos, parecendo tudo muito familiar.
Ele é capaz ainda de atitudes raras e superiores, comprovando a benevolência e caráter do qual é portador, gerando a lenda e mito em que foi transformado permanecendo até os dias de hoje.

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